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O dobro e tudo

2012 é o ano em que tudo veio/virá em dobro. Dois verões, dois outonos, dois invernos, dois continentes…

E eu, só. Tentando me multiplicar para dar conta de tudo isso.

Um dia de Barça

Hoje no final da tarde ouvi um zunzunzum. Liguei a TV a tempo de ver o replay do gol do Chelsea.

Estranho voltar aqui depois de mais de um mês. É como se a vida estivesse em suspenso até o post seguinte. Só que não. Foram uns quatro rascunhos e/ou tentativas frustradas de escrever alguma coisa que não saia, porque não dá pra escrever num lugar como esse sem vontade.

Então, o Barcelona.  Quantos recordes, quanto glamour em torno deles. Durante muito tempo só ganhando, ganhando, ganhando. Mas hoje o melhor se deu mal.

Não sei se eles pensaram que um dia esse jogo poderia mudar. Eu penso. Neles nem tanto, em mim mesmo. Quando as coisas caminham muito bem e dá tudo muito muito certo, eu penso que logo acaba. É fato, vai acabar, vai acontecer um revés. Chamo isso de choque de realidade. Ana e Chico dizem que eu piro na semiótica. Para as outras pessoas, em geral eu só piro.

Todo mundo tem um dia de Barça, pro bem ou pro mal. Com o inconveniente de não poder demitir o técnico depois da partida.

Enfin le printemps

Até começar a escrever eu pensei que estivesse de mau humor. Mas não, estou apenas irritada. Irritada, por que às vezes acho que eu me preocupo demais, penso demais, ajo demais. Ok, não é às vezes. É sempre. Resolvi fazer um teste pra ver se esse problema era meu mesmo ou dos outros, que no auge de suas apatias é que não movem o traseiro das suas poltronas.

E ai? Nada. Exatamente isso. Eu, sabendo o que estava acontecendo e fingindo que não ligava (e completamente desesperada para resolver o pepino de uma vez) e a pessoa também sabendo o que estava acontecendo e não ligando mesmo.

Fui até olhar no dicionário a definição pra apatia pra ver se a carapuça servia: “2    estado de alma não suscetível de comoção ou interesse; insensibilidade, indiferença ”.( Ênfase em “não suscetível de interesse” e “indiferença”). Como uma luva!

Respiro fundo? Rezo? Tomo chá de camomila? Cantemos Piaf! Se o tempo anda frio e nebuloso, não custa torcer pro sol brilhar aqui também. Mesmo que o outono comece hoje.

Os graves e as aspas

Quando eu comecei a escrever na escola, toda vez que eu ia copiar o texto do quadro e via uma crase, eu trocava o acento grave pelo agudo. Pensava que a professora, coitadinha que era, tinha esquecido o acento certo. Até que um dia eu descobri que o erro era meu.

A mesma coisa aconteceu com os sinais de pontuação em francês. Existe uma distância entre os pontos e guillemets das palavras que eu jurava estar erroneamente impresso nos livros e textos por ai. Hoje resolvi corrigir meu texto num corretor ortográfico e percebi mais esse equívoco.

As outras línguas ainda não me pregaram essa peça. Ou eu ainda não percebi.

Estou aqui me divertindo dessas constatações solitárias que são óbvias e que passam despercebidas aos nossos olhos. É um misto de embaraço tardio e alegria de descobrir o certo e permitir-se errar outras coisas daqui pra frente.

Corda Bamba

Tenho abertos diante de mim quatro arquivos de textos para terminar o mais rápido possível.  Tenho na escrivaninha mais outro tanto de textos, já impressos e ainda inacabados. Sim, bateu um desespero. O que eu queria mesmo era ligar pra minha mãe vir me buscar. É claro que ela nunca viria.  Por isso vim aqui escrever o que não sai nas outras laudas em minha língua materna com meus erros habituais.

Toda vez que bate esse desespero eu penso no Amanuense Belmiro que disse no seu diário: “Venho da rua deprimido, escrevo dez linhas, torno-me olímpico.” Fui menos feliz porque só sai de casa pra colocar o lixo lá fora. Nem quero ser olímpica não, simples mortal já é deveras complicado. Mas não deixa de ser uma coisa estranha, masoquista até, de querer curar a angústia da escrita com a escrita. Na falta do que dizer, digo. Olha o foco indo longe, longe…

Fui pegar um caderno e encontrei excertos de O avesso e o direito de Camus. “Assim é, sem dúvida, que abordei essa carreira desconfortável em que me encontro, enfrentando com inocência uma corda bamba, na qual avanço com dificuldade, sem estar seguro de alcançar a outra ponta.”

Estranho isso de encontrar palavras que se encaixam perfeitamente naquele momento.  Destino, coincidência, forçação de barra ou nenhuma das alternativas anteriores, o que importa é saber que a gente nunca está sozinho nessa puxação de angústia, nessa incerteza nossa de cada dia.

Pronto, registrado e procrastinado. Agora deixa eu me equilibrar de novo porque ainda há muita corda até chegar lá do outro lado.

Os inquietos também são felizes

Acabei de ler que um psiquiatra nos Estados Unidos concluiu que para ser feliz todo mundo precisa de um pouquinho de inquietude. Se alguém quiser um pouco é só falar.

Quando você se chamar saudade

Lá em casa sempre ouvimos de tudo. Nesse tudo, um dos cantores que  foram mais ou menos frequentes durante a minha infância foi Nelson Gonçalves.  O interessante nem é meu pai no auge da sua balzaquianice ouvir samba-canção ou eu e a minha irmã improvisando microfone com escova de cabelo cantando as lamúrias de um coração partido. Essas músicas acabaram invariavelmente tornando trilhas sonoras de muitos momentos. De uma delas, que na verdade nem é samba-canção, é “Quando eu me chamar saudade” do Nelson Cavaquinho me lembro sempre que morre alguém, celebridade ou não.

“Sei que amanhã / Quando eu morrer / Os meus amigos vão dizer / Que eu tinha um bom coração / Alguns até hão de chorar /E querer me homenagear.” Relaxe, não importa muito se você não reciclou o lixo, não atravessou na faixa de segurança ou comeu carboidratos depois das 18 horas.  O fato é que quando você morrer, a grande maioria das pessoas irá se esforçar para lembrar apenas aquilo que você fez de bom. E se você não fez nada, eles inventam.  A condição de morto assegura a dignidade, parece. Acho que é uma das poucas situações em que o ser humano se coloca na condição do outro e pensa: “Eu espero que seja assim quando eu morrer.” Porque é um tanto complicado ter que reivindicar melhor tratamento dadas às circunstâncias e o melhor mesmo é garantir o seu fazendo pelo outro.

Não se preocupem comigo, não sou dessas e não quero que sejam assim comigo, tá? Porque sigo a filosofia do Cavaquinho –  de preferência interpretada pelo Nelson –  e a gente pensa assim “Me dê as flores em vida / O carinho, a mão amiga / Para aliviar meus ais./ Depois que eu me chamar saudade / Não preciso de vaidade / Quero preces e nada mais.” “Se alguém quiser fazer por mim, que faça agora.”

Feliz Aniversário

“De croire aux dimanches
D’aimer les dimanches
Quand je hais les dimanches.”

Quando eu era mais nova, a ideia de ouvir a vinheta do Fantástico me causava calafrios e, um pouco mais tarde, mudar de canal e ouvir o Silvio Santos perguntar quem quer dinheiro era indício de que o dia estava mesmo acabando. Meu problema nem era o domingo ou a escola no outro dia. Era a madrugada. Porque quando você está assim, velha e morando sozinha, tudo bem ligar o computador, assistir à um filme, tomar banho ou cozinhar. A menos que algum vizinho se incomode. Mas a insônia das crianças é pouco respeitada.

Depois, domingo virou hora de voltar pra casa. Pra minha casa. Se a chegada para visitar a família era sempre cheia de verborragia e risos, o domingo à noite era hora de ir embora. Tentei resolver isso saindo segunda de madrugada, mas ainda assim não funcionava. Eu sou uma pessoa ansiosa e o maior dos problemas em ser assim é que a gente tem uma tendência de sofrer sempre e na maioria das vezes sem motivo. Comecei a evitar essa autocomiseração e os resultados têm sido menos dolorosos.

Dos domingos mais legais eu não gosto muito de falar não. Porque precisaria descrever com todos os detalhes e eu ainda preciso escrever muito e, quando escritora razoável me tornar, chegar a conclusão de o melhor mesmo é deixar como e onde está. Na memória e no coração.

Mas tem essas coisas que aparecem e fazem a gente lembrar de tudo de novo. E as nossas histórias que se misturam às histórias das outras pessoas. As marchinhas de carnaval começaram a tocar “Ta-hí” e eu só consigo ouvir a Tetê cantando “que me dar seu coração.” E vem uma alegria, vontade danada de voltar pra algum daqueles domingos e pedir um abraço gostoso dela.

Amanhã começa o julgamento do Lindemberg Alves. Imagino o quanto deve ser doloroso para uma família que tenha perdido um ente querido e que precise passar por um tribunal. É reviver toda dor e angústia de um momento que custa a cicatrizar. Dessas coincidências estranhas esse caso mais estranho ainda me faz reviver o nosso drama. Não quero falar das disso também.

Hoje é aniversário da minha irmã. Queria dizer umas palavras bonitas e piegas porque ela merece. Dizer também que essa distância geográfica vai ficar maior, com fuso horário diferente … E que vamos superar os contratempos, como conseguimos fazer com os domingos chatos e as coincidências estranhas.

Domingo não deveria ser dia de ensimesmar-se.

Pra começar…

  • Dizem por ai que o ano brasileiro só começa depois do carnaval, o que supostamente me isenta do abandono desse espaço.
  • Os clichês… Ah, os clichês.
  • Tenho pensado hiperbolicamente infinitas vezes mais do que pensei em TOOOODA a minha vida.
  •  Penso mais, logo não durmo nunca mais.
  • Ah, um pouco de drama não faz mal a ninguém.
  • Estou achando o máximo essa expectativa pré-apocalíptica de 2012.
  • Paul McCartney, o Sir, lançou disco novo. Ele disse pra ouvi-lo tomando uma garrafa de vinho depois do trabalho.  Espero que ele não se incomode, mas estou ouvindo agora comendo um pão bem gostoso que eu fiz (às 4 horas da manhã = otimizando o tempo não dormido) para acompanhar o café.

Pulp Fiction (Ou alguns dos melhores diálogos do cinema)

Da série: “Filmes que eu gostaria de ter dirigido e roteiros que amaria ter escrito”.

-  Don’t you hate that?
-  What?
-  Uncomfortable silences. Why do we feel it’s necessary to yak about bullshit in order to be comfortable?
-  I don’t know. That’s a good question.
-  That’s when you know you’ve found somebody special. When you can just shut the fuck up for a minute and comfortably enjoy the silence.

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